Wednesday, June 25, 2008

Camargo Guarnieri - OSUSP

    01 Concerto para orquestra de cordas e percussão (1972)

    02 Toada à moda paulista (1929)

    Seresta para piano e orquestra de câmara (1965)
    03 I. Decidido
    04 II. Sorumbático
    05 III. Gingando

    06 Abertura Concertante (1942)

    Cynthia Priolli, piano (faixas 3-5)
    Camargo Guarnieri, regente (faixa 1)
    Ronaldo Bologna, regente (faixas 2-6)
    Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo

    USP
    1997

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    Seresta para piano e orquestra


    Apenas um ano separa o Concerto n" 3 da Seresta, que inaugura o terceiro estágio. Encomendada pela Sociedade de Cultura Artística de São Paulo e dedicada a Anna Stella Schic, ela foi composta em 1965 para piano solista, harpa, xilofone, tímpano e orquestra de cordas, e obteve, em 1969, o prêmio Golfinho de Ouro, concedido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Ao contrário do que o título pode sugerir, essa não é uma seresta lírica, mas uma sublimação da música de choro em sua riqueza de contracantos e de contra-ritmos.

    No primeiro movimento, 'Decidido', a obra mostra imediatamente seu personalíssimo perfil. Uma linha melódica ascendente, sinuosa, se faz ouvir ao piano com discreto apoio da orquestra. O desenho prossegue, gracioso, até a sua enfatização com o desdobramento da linha melódica em duas, num efeito de eco, enquanto caminha, em dinâmica crescente, para o registro grave do instrumento. A orquestra, tratada como num concerto grosso, contraponta fazendo parte do tema em valores dobrados. O discurso prossegue com piano e orquestra contrapontando-se e dialogando em torno do tema único, até o final do movimento. Essas falas simultâneas e dialogadas entre o solista e os demais instrumentos, isoladamente, em naipes ou nos tutti, criam atmosferas novas através de combinações fímbrias inusitadas, além de destacarem outros elementos do texto musical. A espontaneidade da inspiração cromática, a sinuosidade caprichosa ressaltam a originalidade da feitura melódica. Servindo-se apenas de duas figuras em todo o movimento - colcheia e semínima -, Guarnieri cria uma rítmica fecunda e personalíssima: aliada à sua habitual alternância de compassos, uma riquíssima variedade de acentos e um aproveitamento inusitado da eloqüência das pausas alimentam o texto de notável vitalidade. Outro traço do estilo guarnieriano - a escrita por linhas horizontais, sua tendência para o contraponto - tem excepcional rendimento nesse movimento, onde surpreende pela ousadia com que é tratado, a movimentação das partes com uma liberdade que por vezes parece ignorar limites.

    Dois temas compõem o segundo movimento, 'Sorumbático'. No primeiro Guarnieri manifesta sua ligação afetiva com a terra através da quintessência da modinha, intacta em seu lirismo. O segundo é criado em instrumentação preciosa, inicialmente nos violoncelos com os baixos sustentados pelos contrabaixos e o piano em delicados arpejados que antecedem acordes à maneira da harpa; depois ao piano em escrita mais densa, contrapontado pelas violas; e finalmente nos violinos, com harpa e primeiros violinos marcando suavemente a pulsação de um desenho melódico obsessivo e o piano no registro agudo em tercinas compostas de uma oitava justa ascendente e outra diminuta descendente, movimento e dissonância que soam como uma etérea ondulação. Uma ponte conduz à volta do primeiro tema no piano, depois nos primeiros violinos e violoncelos. A pequena coda também utiliza esse tema, que encerra o trecho em recolhimento.

    O terceiro movimento, 'Gingando', aproxima-se mais das raízes nacionais, principalmente no extrovertido primeiro tema. Como vindo das profundezas da memória, um ritmo nasce, longínquo, no tímpano em pp, entrecortado, aqui e ali, pelas cordas, cuja fala vai se tornando mais consistente e freqüente, até substituí-lo na sua base rítmica para a entrada do piano que, em notas rebatidas, revive animado o clima da embolada. O segundo tema é apresentado pelos segundos violinos e violas; a energia alegre da melodia e a impulsividade rítmica transbordam vitalidade que cresce a cada reapresentação, primeiramente no piano solo e depois acompanhado pela orquestra. Após a volta do primeiro tema, chegamos ao ponto culminante: coroando a ousadia contrapontística, cantam juntos, gloriosamente, o primeiro tema no piano e o segundo na orquestra. Repete-se o processo, invertida a distribuição das partes. O resultado é impactante nas duas versões, às quais se segue um brilhante desenho ascendente extraído do primeiro tema, no instrumento solista apoiado pela orquestra. A obra termina com breve mas eloqüente intervenção do tímpano, ao qual se juntam, no compasso seguinte, piano e orquestra, numa convicta síncopa.

    Laís de Souza Brasil
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