Tuesday, June 10, 2008

Jorge Antunes - !No se mata la Justicia!


    01 Elegia Violeta para Monsenhor Romero (1980), para 2 crianças cantoras solistas, coro infantil, piano obligato e orquestra de câmara

    Coro Infantil do Kibutz Hatzerim e do Conservatório de Música de Beer-Sheva
    Crianças solistas: Hagit Shapira e Ruth Halifa
    Piano obligato: Mariuga Lisbôa Antunes
    The Israel Sinfonietta
    Regente: Jorge Antunes

    A obra é dedicada à memória do arcebispo de San Salvador, D. Oscar Arnulfo Romero, que foi assassinado em março de 1980 por radicais de direita. O coro infantil recita e canta textos de Don Romero, dos Salmos 55, 56 e 59 de David, assim como outros textos condenando a violência e a injustiça social, extraídos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e de escritos de Che Guevara, Naji Alush e Vassili Vassilikos.

    A obra foi escrita durante os quatro meses de estadia do compositor em Jerusalém e no Kibutz Hatzerim, como hóspede especial do Festival da SIMC 1980, pelo prêmio recebido em concurso internacional promovido pela Sociedade Israelense de Música Contemporânea. A visita do compositor à Cidade Santa o influenciou enormemente com relação ao caráter geral da obra, pois que, conforme afirmou, ele "sentiu em cada pedra de Jerusalém a dor e o sofrimento do homem". Esse sofrimento é representado pela cor violeta que, de acordo com a Teoria Cromofônica de Antunes, corresponde à nota Mi, na qual a obra se baseia.


    As três seções da obra são construídas, assim, com base na nota mi e em sua série harmônica.


    02 Cromorfonética (1969), para coro a capella

    Coro Pro-Arte Ensemble Graz
    Regente: Karl Emst Hofmann

    Cromorfonética é uma composição sonoro-pictórica com fonemas. O título contendo as palavras cromo, morfo e fonética já revela as idéias que inspiraram o compositor. A obra foi escrita em 1969 em Buenos Aires, quando Jorge Antunes era bolsista do Centro Latinoamericano de Altos Estudios Musicales do Instituto Torcuato Di Tella.

    Além de diversos efeitos vocais, a obra utiliza um único verso extraído de um poema do poeta cubano Inti Peredo. um dos companheiros de Fidel Castro. Camilo Cienfuegos e Che Guevara em Sierra Maestra. O verso de Peredo é: Nosotros volveremos a las montarias.

    A frase de doze sílabas levou Antunes a associar cada um dos doze sons a cada uma das sílabas. Assim, são formados quatro acordes de quinta aumentada, cada um com três sons. Cada acorde é confiado a uma das quatro vozes: sopranos, contraltos, tenores e baixos.

    Cada uma das partes vocais, assim, canta apenas três notas quando emitem alturas determinadas, permitindo que o compositor faça uso da técnica de registração fixa.

    Células melódicas, efeitos vocais e nuvens de pontos se entrelaçam, dando origem a palavras que não existem, formadas com as permutações das doze sílabas do verso.

    Apenas uma vez a frase se completa de modo inteligível, repartida estereofonicamente no coro. Um largo repertório de efeitos nasais e vocais é usado na costura sintática dos segmentos de entonação no sistema temperado.

    03 Proudhonia (1972), para coro misto e fita magnética

    Coro: Les Douze Solistes des Choeurs de l'ORTF
    Regente: Marcel Couraud
    Gravação: 16/04/1973 - Festival de La Rochelle 1973
    Rencontres Internationales d'Art Contemporain Salle Oratoire, La Rochelle, France

    Proudhonia, para coro misto e fita magnética, foi escrita em Paris em 1972 sob encomenda do regente francês Marcel Couraud, para ser estreada naquele mesmo ano em Munique, no Festival das XX Olimpíadas. A obra está escrita para doze vozes solistas e fita magnética, estando toda ela baseada num dos famosos textos do filósofo anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon. O texto de Proudhon é, numa exclusiva utilização musical, despedaçado de modo concretista e construtivista, para desembocar no clímax da peça em que o coro usa a voz sussurrada, falada e gritada para expressar os protestos contidos no texto.

    Antunes dividiu as sessenta palavras em doze conjuntos [do texto] de cinco palavras cada, e reservou cada conjunto de cinco palavras a cada um dos doze solistas vocais do coro. O uso das palavras nas vozes é explorado com as mais diferentes formas de emissão vocal, desde a célula veloz e vertiginosa, até a intervenção lenta e gradual.

    Sons eletrônicos e sons vocais se inter-relacionam constantemente: ora os sons vocais imitam os sons eletrônicos, ora os sons eletrônicos apresentam caráter vocal. A fita magnética foi realizada nos estúdios do Groupe de Recherches Musicales (GRM), de Paris, com os meios tradicionais analógicos, mas o compositor utilizou também os recursos de controle de voltagem de seu sintetizador EMS Synthi A.

    Rimbaudiannisia MCMXCV (1994), para jovens cantores solistas, coro infanto-juvenil, orquestra de câmara, luzes e máscaras.

    04 Parte I: Expiation pour Cumiqoh
    05 Parte II: Voyelles
    06 Parte III: Dithyrambus

    Choeur La Maîtrise de Radio France Orchestre Philharmonique de Radio France Regente: Arturo Tamayo

    O compositor lannis Xenakis, nascido na Roménia, com formação musical feita na Grécia e tendo se radicado na França, foi um dos gurus da música de vanguarda, tendo falecido em 2000. Jorge Antunes que, tal como Xenakis, tem obras editadas pela Editora Salabert de Paris, desfrutava da amizade do grande compositor com o qual inclusive trabalhou no Atelier UPIC em 1993. Naquele ano Xenakis escrevia, sob encomenda da Radio France, uma obra para Coro Infantil a capella intitulada Pu Wijnuej we Fyp, especialmente para a "Maîtrise de Radio France", o famoso e magnífico coro infantil da rádio francesa.

    A obra de Xenakis utilisa o poema Le Dormeur du Val, de Rimbaud, com uma transformação fonética construída através de substituição biunívoca das letras do alfabeto. O novo "poema" passa a ser totalmente incompreensível, mas ele continua a ser um soneto sem defeitos e com o mesmo esquema de rimas, porque a regra de substituição de Xenakis adota uma exceção: sempre se substitui uma vogal por outra vogal e uma consoante por outra consoante.

    O método de substituição ou de correspondência sinestésica já havia sido usado por Rimbaud no famoso soneto Voyelles. Neste belo exemplo de histoires de folies de Rimbaud, ele "inventou" as cores das vogais e, segundo o próprio poeta, "regulou a forma e o movimento de cada consoante".

    Em 1994 a Radio France encomendou uma obra a Jorge Antunes, para ser estreada no Festival Présences de 1995. A obra, a ser interpretada também pela Maîtrise de Radio France, deveria ser escrita para coro infantil, jovens solistas vocais e conjunto instrumental de câmara. Impressionado com a sisudez da obra de Xenakis, que tratava as crianças do coro como adultos, com trechos melódicos de extrema dificuldade, e também surpreso com a destruição literária que Xenakis fizera com o poema de Rimbaud, Antunes resolveu escrever uma obra com caráter de desagravo ao grande poeta francês criador do simbolismo.

    Ao mesmo tempo, a nova obra de Antunes homenagearia seu amigo Xenakis, criticando-o. O meio musical francês, em 1993, havia acompanhado o longo sofrimento das crianças do coro da Rádio, dirigidas por Denis Dupays, que durante um ano haviam estudado e preparado a obra de extrema dificuldade técnica de Xenakis.

    Antunes queria escrever uma obra, para aquelas mesmas crianças, usando elementos musicais e cênicos de agrado imediato para cantores daquela faixa etária: jovens músicos entre 8 e 14 anos de idade. Essa foi uma das razões que levou Antunes a escrever uma obra em que os pequenos coristas utilizam caras pintadas, máscaras e lanternas.

    07 Rituel Violet (1999), para saxofone tenor e sons eletrônicos

    Saxofone: Daniel Kientzy

    Jorge Antunes conta que, em um domingo de junho de 1995, ele teve a alegria de encontrar seu querido amigo Jorge Peixinho, em Paris, na casa do saxofonista Daniel Kientzy, Peixinho e Kientzy tinham um novo projeto: os dois virtuoses trocavam idéias e organizavam uma série de concertos para um novo duo Sax-Piano. Antunes testemunhava o nascimento do Duo Kientzy-Peixinho e estava muito contente porque seus dois amigos lhe encomendaram uma obra nova para o duo.

    Durante a viagem de volta a Brasília, Jorge Antunes fez esboços para a nova obra. Suas idéias musicais eram bastante influenciadas por impressões visuais, especialmente pelos gestos de Jorge Peixinho, durante suas improvisações. Seus clusters na região grave se encadeavam aos clusters na região aguda do piano através de gestos semicirculares, de sua mão direita, no ar. Os objetos sonoros ganhavam, assim, contornos semelhantes aos signos pictóricos de Juan Miró: o espaço era o suporte da expressão musical; o tempo fluía no espaço.

    Um mês depois, em Brasília, Antunes recebeu a notícia da morte de Jorge Peixinho. Foi difícil aceitar a nova situação. Faltava um Duo.

    Rituel Víolet foi escrito em maio e junho de 1999 para o inexistente Duo Kyentzy-Peixinho. A parte destinada a Jorge está fixada na fita magnética. A cor violeta, aquela da dor, da saudade, cobre todo o fundo do quadro. A nota violeta, um mi pedal, sustenta o diálogo entre o sax e os gestos sonoro-espaciais de Peixinho-Miró. O sax-tenor deve procurar os pictogramas dramáticos no espaço do palco. Assim, Peixinho gesticula as trajetórias eletrônicas que são signos de Miró. A dramaticidade da obra é o grande desafio para o solista, porque ele verá e sentirá Jorge a seu lado, sobre o palco. Consequentemente, o sax joga com o invisível e o pavilhão do instrumento descreve trajetórias no espaço. O saxofonista, como um médium que entra em transe, ritualiza o processo musical com posições, no palco, que não são convencionais: de cócoras, correndo, andando, de pé, de joelhos,...

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